Falta uma estrela

por Texto: * Luiz Carlos Schneider / Fotos: Vito Cedrini # Maio/2012 | Voltar

A Varig, bem mais do que uma sigla, mais do que uma empresa e além de uma marca é a própria imagem de um avião. Preferencialmente um Boeing daqueles dos anos 1960. Sim, um esguio 707 esbanjando elegância: uma faixa azul separando o alumínio do branco. Uma leitura que poderia ser o céu entre a tecnologia e a natureza. Ganhava movimento com o Ícaro e a rosa dos ventos, representando o sonho de voar e desbravar o mundo.

O sonho de voar lembra o pioneirismo da Varig que abriu porteiras mundo afora. A tecnologia também está associada ao pioneirismo, inaugurando a era jato e colocando a aviação comercial brasileira em patamar de muito respeito. Em meio à natureza, os aviões da Varig invadiram do cenário das coxilhas gaúchas à selva amazônica. E lá fora seu azul esbanjava elegância nos maiores aeroportos do planeta.

Sempre ouvimos que Varig é Varig e ponto final. A Varig referenciou o Brasil, assim como a própria aviação comercial. Por décadas era impossível falar em aviação sem falar na Varig. Aeroporto e avião começavam e terminavam em Varig. E tudo isso de uma maneira no mínimo muito respeitosa. Mais do que um referencial, a Varig transformou-se em algo superior. A Varig estava bem acima e assim era reverenciada.

É óbvio que a Varig não estava sozinha. Em matéria de concorrentes estava entre muito boas companhias. E no meio de tão qualificada concorrência nunca fez feio. Ao contrário, dava de pelego em elegância, segurança, qualidade e atendimento. Esses predicados criaram uma concepção indissociável: o padrão Varig. É um patamar, um balizamento que separa a Varig dos outros, por mais qualificados que sejam. Uma cultura forte, respeitada que ainda predomina quando o assunto é linha aérea.

Avião é da Varig, aprendemos isso desde guri. E crescemos reforçando esse conceito ao voar pela Varig ou simplesmente ao ver a fotografia de suas aeronaves. Sentimento que aumentava ao conferir a elegância dos atendentes no ambiente clássico de suas lojas. Essa ideia solidificava-se com a sobriedade de suas propagandas. O nome Varig qualificava páginas de revistas e jornais, era a dona da noite nas rádios e encantava na TV com a sua Estrela Brasileira.

Mas não foi apenas pela propaganda ou pela elegância da sua imagem que a Varig tornou-se um referencial. É claro que o padrão Varig sempre pesou muito, mas havia outro fator determinante: o vínculo. Esse vínculo pode ser lido na presença da bandeira brasileira ao lado do nome Varig na fuselagem de seus aviões. É claro que para nós gaúchos o Rio-Grandense tem um peso extra e nos leva à mesma origem. Remete-nos aos tempos em que seus DC-3 cortavam os céus do Interior. Era a mesma pintura que marcaram os 707, o DC-10 e até mesmo os enormes 747. Não importa o tamanho, saiam do mesmo ninho, ali no Salgado Filho.

Muito além dos aviões e aeroportos, com a Varig temos uma intimidade do cotidiano. Está presente em nosso meio, onde sempre temos um parente ou um amigo que foi piloto da Varig. Ou aquela fotografia onde aparece uma de suas inconfundíveis aeronaves. A intimidade é recheada pelas histórias que carregam a expressão Varig. Um voo, uma loja, uma ida ao aeroporto ou até mesmo um simples ponto de referência. Está no fundo de um armário, onde encontramos uma miniatura ou um singelo aviãzinho de brinquedo nas cores da Varig.

O céu continua azul. O branco das nuvens nos convida para voar e apreciar a natureza. O alumínio das máquinas ainda faz zigue-zagues cortando os céus. Mas os céus parecem carentes e perderam a elegância daquelas linhas sóbrias. Ícaro voou alto demais e a rosa dos ventos que girou pelo mundo, não estão mais no azul infinito. O firmamento pede perdão pela ausência daquele confiável padrão. Falta uma estrela iluminando de Norte a Sul. Mas na lembrança ainda ecoa Varig, Varig, Varig.

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(*) Luiz Carlos Schneider do Amaral Santos, jornalista e radialista.

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